Pelo fato de vivermos em um mundo feito por e para homens, é do conhecimento geral e faz parte de um entendimento coletivo que, se a mulher não possui um emprego formal, e não traz dinheiro para dentro de casa, então ela "não trabalha".
Quem reproduz esse discurso, provavelmente, tem casa autolimpante, louça autolavável, e comida que se cozinha com o poder da mente, certo?
Certo dia, em uma aula, perguntei aos meus alunos quais eram as profissões dos pais deles. De maioria advinda de uma configuração conservadora e religiosa, quase todos - raríssimas exceções - diziam, "meu pai é (nome da profissão) e minha mãe não trabalha, só cuida de casa". Me chocou notar que a maioria dos adolescentes entre 12-17 anos não viam o serviço doméstico como um trabalho.
Ali eu precisei intervir. Deixei todos falarem, e, ao final, perguntei: levante a mão quem tem mãe dona de casa. Aos que levantaram a mão, perguntei: "vocês disseram, então, que as mães de vocês não trabalham, certo?", e eles, "certo". Indaguei: "quem cozinha? Quem lava a roupa? Quem passa a roupa? Quem faz as compras do supermercado? Quem limpa a casa? Quem é a última a comer e a última a dormir? Quem ajuda nas tarefas da escola? Quem lê (nome do livro sagrado) com vocês? Quem prepara a casa para vocês receberem os amigos?". Completo silêncio, carinhas pensativas, seguidas de "é, professora... Você tem razão."
Completei com: "portanto, hoje, quando vocês saírem da aula e forem para a mesa comer uma comida fresca, beijem, abracem suas mães e as agradeçam pelo amor e pelo cuidado."
Reproduzir esse discurso e tratar menos que a uma empregada (porque, ao menos, empregados domésticos têm direitos), a mulher que, 24/7, se dedica ao serviço doméstico, não é só um discurso pobre, como, também, é um discurso burro. (E eu não vou pedir desculpas pela minha honestidade ácida)
O que a grande maioria das pessoas não entende é que o trabalho invisibilizado das mulheres (senão donas de casa, as que, também, como eu, possuem dupla jornada) é o que, de fato, sustenta a carreira dos provedores.
São as mulheres da casa, séculos após séculos, que promovem reuniões familiares, que criam nos filhos as memórias mais doces, que promovem a alegria dos Natais e aniversários. O que seria dos Natais sem o serviço invisível das mulheres?
Sim, meu amigo, foi isso mesmo que você leu: é o serviço doméstico da tua mulher é a força-motriz que sustenta tua carreira e a tua vida!
Não acredita? Vamos aos números (cálculo em dólares americanos).
Para contratar mensalmente:
Babá (5 dias na semana): ~1,600 – 2,400 USD
Empregada doméstica (3 vezes na semana): ~ 600 USD
Marmitas (60 por mês - considerando almoço e jantar, caso ninguém cozinhasse pra você): ~225 USD
Total mensal aproximado: US$ 2,425 a US$ 3,225
Se você é capaz de levantar, tomar seu café em paz, ir ao seu trabalho, ser produtivo o bastante para seguir crescendo em sua carreira, o mérito é seu em trabalhar sim, mas há alguém por trás das cortinas, segurando a corda por você. Há alguém que passa o teu café, que prepara sua comida, que limpa a sua casa, que lava a sua roupa, que te dá apoio quando o teu chefe resolve te ferrar, que fica ao teu lado quando as coisas ficam realmente difíceis.
Remunere, se possível, o trabalho da tua mulher. Agradeça. Cozinhe para ela, deixe-a descansar um dia na semana. Reconheça o valor de quem te sustenta, não com dinheiro, mas com tudo aquilo que o dinheiro jamais poderá comprar.
E se ainda não acredita em nada do que leu, experimente trocar de lugar com sua esposa por 1 semana...